quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Considerações sobre antigos historiadores. [Por Arthur Schopenhauer]






Os antigos historiadores tornaram-se tão grandiosos porque eram poetas. Quando os dados lhes faltavam, complementavam-nos de forma correta a partir da Ideia, como por exemplo nos discursos dos heróis, sim, em seus diálogos sua maneira de tratar o assunto aproxima-se da poesia épica.
Mediante esse complemento a partir da Ideia, suas exposições alcançam unidade perfeita e plena coesão interior; com isso, mesmo quando a verdade exterior não lhes é acessível, ou até é falseada, eles salvam a verdade interior, ou seja, a verdade poética, a verdade da Ideia de humanidade. Eu disse que a história está para a poesia como a pintura de retratos está para a pintura histórica; agora podemos aqui usar a já mencionada regra de Winkelmann para o retrato(1), quando ele afirma que o retrato deve ser o ideal do indivíduo. Justamente isso realizaram os antigos historiadores em suas descrições. Eles expuseram de tal maneira o dado, o particular, o individual, que o lado da Ideia de humanidade que ao se exprimia entrou em cena clara e puramente. Os historiadores modernos raramente seguem os passos dos antigos, e muitas vezes vale para aquele o que Goethe diz, ou seja, eles oferecem


Ein Kehrichtfaß und eine Rumpelkammer 
Und höchstens eine Haupt- und Staatsaktion


(Um barril de entulhos e inutilidades / E quando muito uma ação principal e de estado)

A história, enquanto tal, possui seu grande valor duradouro e inquestionável, tendo-se em vista o conhecimento do encadeamento dos fenômenos do mundo humano. Para quem, entretanto, pretende conhecer a humanidade em seu íntimo, em todos os fenômenos e desenvolvimentos de sua essência idêntica, portanto conforme sua Ideia, para esse as obras dos poetas grandiosos e autênticos apresentarão uma imagem muito mais fiel e clara do que já o conseguiram os historiadores; pois, entre estes, até mesmo os melhores, como poetas, não são por muito tempo os primeiros e também não têm mãos livres. Ainda uma comparação da relação do poeta com o historiador: o mero e simples historiador que trabalha apenas de acordo com os dados se assemelha a alguém que, sem conhecimento algum da Matemática, investiga por medições as proporções das figuras que acabou de encontrar; suas especificações descobertas empiricamente têm de, por conseguinte, conter todas as incorreções próprias às figuras assinaladas. O poeta, ao contrário, assemelha-se ao matemático, que constrói a priori aquelas proporções numa intuição pura, não empírica, estabelecendo-as, portanto, não como elas se encontram efetivamente nas figuras assinaladas, mas como são na ideia(2) e que o desenho deve tornar sensível.



1 - Cap. 14, "Do caráter"
2 - Ideia no sentido de pensamento.


(Cap. XVI. IN: Metafísica do Belo.)


Nenhum comentário:

Postar um comentário