domingo, 2 de março de 2014

100 escólios de Nícolas Gómez Dávila.



A ciência enriquece a inteligência, já a literatura enriquece a personalidade inteira.

As verdades não se contradizem senão quando se desordenam.

O progressista acredita que tudo torna-se obsoleto brevemente, salvo suas ideias

A relatividade do gosto é desculpa que adotam as épocas que possuem mau gosto.

Quando miramos alto não há público capaz de dizer se acertamos.

Quem vive largos anos assiste a derrota de sua causa.

O que a imaginação não completa é mero fragmento da realidade.

Um livro é medíocre quando é possível definir sua excelência.

A época de liberação sexual reduz a uns poucos gritos de espasmos as ricas modulações da sensualidade humana.

O homem atual admira apenas os textos histéricos.

A superficialidade consiste, basicamente, no ódio às contradições da vida.

O impacto de um texto é proporcional à astúcia de suas reticências.

Não há verdade que não seja lícito estrangular se há de ferir a quem amamos.

O sacrifício da profundidade é o preço que exige a eficácia.

Já não existem anciões senão jovens decrépitos.

A inveja não é vício de pobre, mas de rico. Do menos rico ante o mais rico.

O cinismo não é indício de agudeza mas de impotência.

As duas asas da inteligência são a erudição e o amor.

A imaginação não é o lugar onde a realidade se falsifica, mas onde se cumpre.

A vulgaridade não é um produto popular senão um subproduto da prosperidade
burguesa.

A ideia perigosa não é a falsa, senão a parcialmente correta.

A vocação genuína faz o escritor escrever apenas para si mesmo. Primeiro por orgulho, depois por humildade.

O que significa a beleza de um poema não tem relação alguma com o que o
poema significa.

A influência não enriquece senão os espíritos originais.

Nada que não possua valor se distingue do que o possua senão pelo próprio valor.

Para renovar não é necessário contradizer, mas aprofundar.


A verdade é uma maneira de pensar e de sentir.

A pessoa que não seja algo absurda resulta insuportável.

A inteligência não consiste no manejo de idéias inteligentes, mas no manejo
inteligente de qualquer ideia.

Toda reta leva direto a um inferno.

As “soluções” são as ideologias da estupidez.

A crença na solubilidade fundamental dos problemas é característica própria ao
mundo moderno. Que todo antagonismo de princípios é simples equívoco, que
haverá aspirina para toda cefaléia.

A ética deve ser a estética da conduta.

Se o burguês de ontem comprava quadros porque seu tema era sentimental ou
pitoresco, o burguês de hoje não os compra quando têm tema pitoresco ou
sentimental. O tema segue vendendo o quadro.

Todo o que faça sentir ao homem que o mistério o envolve torna-o mais
inteligente.

Ensinar exime da obrigação de aprender.

O otimismo inteligente nunca é fé no progresso, mas esperança no milagre.

O homem inteligente costuma fracassar, porque não se atreve a crer no
verdadeiro tamanho da estupidez humana. A verdade está na história, mas a história não é a verdade.

Educar a alma consiste em ensinar-lhe a transformar em admiração sua inveja.

Crer é penetrar nas entranhas do que meramente sabíamos.

O pior vício da crítica de arte é o abuso metafórico do vocabulário filosófico.

A hipocrisia não é a ferramenta do hipócrita, senão sua prisão.

Só o imbecil não se sente nunca co-partidário de seus inimigos.

A imparcialidade é filha da preguiça e do medo.

O amor à pobreza é cristão, mas a adulação ao pobre é mera técnica de
recrutamento eleitoral.

A estatística é a ferramenta daquele que renuncia a compreender para poder
manipular.

A grandiloqüência das teorias estéticas cresce com a mediocridade das obras,
como a dos oradores com a decadência de sua pátria.

O ironista desconfia do que diz sem crer que o contrário seja certo.

Temos necessidade de que nos contradigam para afinarmos nossas idéias.

A literatura toda é contemporânea para o leitor que sabe ler.

A prolixidade não é excesso de palavras, mas sim escassez de idéias.

O homem mais desesperado é somente o que melhor esconde sua esperança.

Dos seres que amamos sua existência nos basta.

Quem critica ao burguês recebe duplo aplauso: o do marxista, que nos julga
inteligentes porque corroboramos seus prejuízos; o do burguês, que nos julga
acertados porque pensa em seu vizinho.

Vencer a um idiota nos humilha.

Como pode viver quem não espera milagres?

Pensar que só importam as coisas importantes é sintoma de barbárie.

Vivemos porque não nos vemos com os olhos que os demais nos vêem.

Entre a anarquia dos instintos e a tirania da ordem, estende-se o fugitivo e puro
território da perfeição humana.

O tom professoral não é próprio do que sabe, senão do que tem dúvidas.

Ninguém pensa seriamente enquanto a originalidade lhe importa.

A “psicologia” é, propriamente, o estudo do comportamento burguês.

Amor é o ato que transforma a seu objeto de coisa em pessoa.

O homem vive a si mesmo como angústia ou como criatura.

O estado moderno fabrica as opiniões que recolhe depois respeitosamente
com o nome de opinião pública.

Amar é compreender a razão que teve Deus para criar ao que amamos.

Amar é rondar sem descanso em torno da impenetrabilidade de um ser.

A ideia inteligente produz um prazer sensual

“Encontrar-se”, para o moderno, quer dizer dissolver-se em uma coletividade
qualquer.

Os problemas metafísicos não acossam ao homem para que os resolva mas
para que os viva.

A feiúra do rosto moderno é um fenômeno ético.

Chamam-se progressos os preparativos das catástrofes.

A sensibilidade não projeta uma imagem sobre o objeto, mas uma luz.

A função didática do historiador está em ensinar a toda época que o mundo
não começou com ela.

Aprender a morrer é aprender a deixar morrer os motivos de esperar sem
deixar morrer a esperança.

A poesia resgata as coisas ao reconciliar na metáfora a matéria com o espírito.

Uma resenha de literatura contemporânea nunca permite saber se o crítico crer
viver no meio de gênios ou se prefere não ter inimigos.

O inimigo de uma civilização é menos um adversário externo que o interno desgaste.

Se costuma apregoar direitos para poder violar deveres.

O anonimato da sociedade moderna obriga a todo o mundo a pretender-se
importante.
Ao divorciar-se religião e estética não se sabe qual se corrompe mais 
depressa. 
• 
Os museus são o castigo do turista. 
• 
Problema que não seja econômico não parece digno, em nosso tempo, de 
ocupar um cidadão sério. 
• 
O moderno não tem vida interior: apenas conflitos internos. 
• 
A lei é o método mais fácil de exercer a tirania. 
• 
Só o inesperado satisfaz plenamente. 
• 
A vida é um combate cotidiano contra a estupidez própria. 
• 
O individualismo é o berço da vulgaridade. 
• 
A estupidez se apropria com facilidade do que a ciência inventa. 
• 
A literatura que diverte o que a faz, emburrece quem a lê.
Inteligência não aspira a libertar-se, mas a submeter-se. A verdade é o resplendor da necessidade.
A burguesia é todo conjunto de indivíduo inconformados com o que possuem, mas satisfeito com o que são.
Ao repudiar os ritos, o homem se reduz a animal que copula e come. 
• 
As pessoas sem imaginação nos congelam a alma. 
• 
Só a religião pode ser popular sem ser vulgar. 
A fé não é uma convicção que possuímos, mas uma convicção que nos possui. 
• 
Os ritos preservam a fé, os sermões minam a fé. 
• 
O calor humano em uma sociedade diminui à medida que sua legislação se 
aperfeiçoa. 
• 
A moda, mais ainda que a técnica, é causa da uniformidade do mundo 
moderno. 
• 
O homem moderno destrói mais quando ele constrói do que quando ele destrói.



[In: DÁVILA, Nícolas Gómez. Escolios a un texto implícito (selección)

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