segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Mitos são paradigmas [Por: Eudoro de Sousa]









"A presença do passado é mito; aí é que está situado o mito. "História é História, não é mito". Os primeiros historiadores começam logo por repelir o mito como a não-verdade. Começam a procurar apenas a verdade científica – que é científica conforme o sentido de ciência da época – e acabam por fazer a sua visão própria da História.
Mitologia é um conjunto de todos os mitos. Mito, com letra maiúscula, é exatamente a origem de tudo. […] Pode-se dizer o que é mitologia, mas não Mito, porque o Mito não é explicável. O Mito explica. O Mito é aquilo que os filósofos depois chamariam de matéria, de ideia, de razão, dando uma explicação factual àquilo que não pode ser explicado. Daí o idealismo, o materialismo, racionalismo, empirismo e todos os ismos.
Os mitos são os paradigmas, os exemplos, os arquétipos através dos quais o homem tira elementos para formar a estrutura factual da História."

Eudoro de Sousa.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

With Usura [Ezra Pound]






[Tradução de Augusto de Campos]

Com usura nenhum homem tem casa de boa pedra

blocos lisos e certos
que o desenho possa cobrir;
com usura
nenhum homem tem um paraíso
pintado na parede de sua igreja
harpes et luthes
ou onde a virgem receba a mensagem
e um halo se irradie do entalhe;
com usura
ninguém vê Gonzaga, seus herdeiros e concubinas
nenhum quadro é feito para durar e viver conosco,
mas para vender, vender depressa;
com usura, pecado contra a natureza,
teu pão é mais e mais feito de panos podres
teu pão é um papel seco,
sem trigo do monte, sem farinha pura.
Com usura o traço se torna espesso
com usura não há clara demarcação
e ninguém acha lugar para sua casa.
Quem lavra a pedra é afastado da pedra
O tecelão é afastado do tear.
COM USURA
a lã não chega ao mercado
a ovelha não dá lucro com a usura
A usura é uma praga, a usura
embota a agulha nos dedos da donzela
tolhe a perícia da fiandeira. Pietro Lombardo
não veio da usura
Duccio não veio da usura
nem Pier della Francesca, nem Zuan Bellini veio
nem usura pintou La Callunia.
Angelico não veio da usura; Ambrogio Praedis não veio,
Nenhuma igreja de pedra lavrada, com a inscrição:
Adamo me fecit.
Nenhuma St. Trophime
Nenhuma Saint Hilaire.
A usura enferruja o cinzel
Enferruja a arte e o artesão
Rói o fio no tear.
Mulher alguma aprende a urdir o ouro em sua trama;
A usura é um câncer no azul; o carmesim não é bordado,
A esmeralda não encontra um Memling.
A usura mata a criança no ventre
Detém o galanteio do moço
Ela
trouxe paralisia ao leito, jaz
entre noivo e noiva
CONTRA NATURAM
Putas para Elêusis
cadáveres no banquete
a comando da usura.

§


[Tradução de José Lino Grunewald]


Com usura homem algum terá casa de boa pedra
cada bloco talhado em polidez
e bem ajustado
para que o esboço envolva suas faces,
com usura
homem algum terá paraíso pintado na parede de sua igreja
harpes et luz
ou onde a virgem receba a mensagem
e um halo projeta-se do inciso,
com usura
homem algum vê Gonzaga seus herdeiros e concubinas
pintura alguma é feita pra ficar
nem pra com ela conviver
só é feita a fim de vender
e vender depressa
com usura, pecado contra a natureza,
sempre teu pão será rançosas códeas
sempre teu pão será de papel seco
sem trigo da montanha, sem farinha forte
com usura uma linha cresce turva
com usura não há clara demarcação
e homem algum encontra sua casa.
O talhador não talha sua pedra
o tecelão não vê o seu tear
COM USURA
não vai a lã até a feira
carneiro não dá ganho com usura
a usura é uma peste, usura
engrossa a agulha lá nas mãos da moça
E só pára a perícia de quem fia. Pietro Lombardo
não veio via usura
Duccio não veio via usura
Nem Pier della Francesca; Zuan Bellini não pela usura
nem foi pintada 'La Calunnia' assim.
Angelico não veio via usura; nem veio Ambrogio Praedis,
Não veio Igreja alguma de pedra talhada
com a incisão: Adamo me fecit.
Nem via usura St. Trophime
Nem via usura Saint Hilaire.
Usura oxida o cinzel
Ela enferruja o ofício e o artesão
Ela corrói o fio no tear
Ninguém aprende a tecer ouro em seu modelo;
o azul é necrosado pela usura;
não se borda o carmesim
A esmeralda não acha o seu Memling
A usura mata o filho nas entranhas
Impede o jovem de fazer a corte
Levou paralisia ao leito, deita-se
entre a jovem noiva e seu noivo
CONTRA NATURAM
Trouxeram meretrizes para Elêusis
Cadáveres dispostos no banquete
às ordens da usura.


quarta-feira, 25 de junho de 2014

Entre tranças e nós: os adornos capilares femininos na era viking

Prof. Luciana de Campos                                                  (Doutoranda em  Letras pela UFPB, membro do GIEM e NEVE).

            Os cabelos sempre foram um dos adornos mais importantes usados pelas mulheres desde a Pré-História. Podiam ser utilizados para simplesmente enfeitar-se ou seduzirem, ou arrumá-los para agradar aos deuses e, assim protegerem-se contra possíveis infortúnios e também demonstrarem o seu status social. Uma mulher que apresentasse farta cabeleira, bem arrumada era mais do que um simples acessório de beleza, e pode apresentar-nos maiores possibilidades de análise do seu uso e não apenas restringir-se à habilidade manual para a composição de tranças e nós, pois, essas tramas capilares são reveladoras de posições sociais, de estado civil e também de serviço religioso e de utilização mágica.
            Os cabelos longos utilizados tanto por homens como por mulheres – desde a Mesopotâmia até o mundo contemporâneo - sempre estiveram ligados à virilidade, a força e também a liberdade (Rouche, 2009, p. 441). A literatura, as artes plásticas, o cinema e, mais recentemente os jogos de RPG e eletrônicos sempre apresentaram os guerreiros mais fortes e as mulheres mais belas com vastas e espessas cabeleiras, as madeixas femininas muitas vezes caiam até a altura da cintura e havia aquelas mais longas ainda. A arte Pré-Rafaelita sempre apresentou as suas mulheres que na maioria das vezes eram personagens da mitologia e do folclore nórdicos com cabelos muito longos geralmente soltos para reforçar o seu caráter de sedução e também mostrar que os cabelos muito longos constituíam um padrão de beleza da Era Viking. Essas representações das longas cabeleiras tanto masculinas como femininas que sobreviveram ao longo do tempo nas artes e também no imaginário popular, foram preservadas em pingentes, em múmias e na iconografia são fundamentais para entendermos como as tramas capilares femininas foram importantes meios de demonstração de condição social e também de práticas mágico-religiosas.
            Os cabelos femininos bem compridos eram deixados soltos pelas mulheres solteiras, não havendo a necessidade de ocultá-los sob os lenços ou toucas que evidenciavam o seu matrimônio (ROUCHE, 2009, p. 441,442), como mostram as imagens das figuras 3 e 4 de uma mulher da Era Viking que trança seus cabelos e depois faz um nó triplo (o Valknut ou nó dos mortos) com elas e envolve toda a cabeça com uma espécie de touca.

Types of Viking Headdresses from Coppergate and Lincoln (after Gail Owen-Crocker)




Figura 1: Ilustração contemporânea do uso de lenços ou tocas por mulheres da Era Viking, fonte: http://www.vikinganswerlady.com/hairstyl.shtml acesso em 27/02/2013 às 09:51. Figura 2: Ilustração contemporânea de tranças da Era Viking. Fonte: http://www.pinterest.com/pin/172333123214286860/ Acesso em 27/02/2013 às 09:54.

Adornados com longas tranças presas com fitas tecidas com linho lã específicas para prender os cabelos ou finas tiras de couro eram também presos por nós, principalmente o nó triplo, o valknut (Langer, 2010, p. 13) ou nó dos mortos que, e podemos supor que esses nós capilares não tinham somente um efeito estético, eram também utilizados como simbolismos mágicos.  As tranças podiam ser presas em forma de coque no alto da cabeça ou à altura da nuca, ou, então envolvendo toda a cabeça como uma coroa ou, então, presas umas as outras e atadas com o nó triplo e, depois envolvidas com um lenço. Já o nó triplo no alto da cabeça que deixava cair em cascata o restante dos cabelos é um penteado muito comum em pingentes da Era Viking representando as valquírias.
As imagens 1 e 2 abaixo mostram dois diferentes tipos de tranças e nós usados pelas mulheres na Era Viking: na primeira, as tranças são atadas por fitas ao redor da cabeça proporcionando um efeito estético que lembra uma coroa e, na outra ilustração (figura 2) há outra trança, também atada à nuca e cai pelas costas dando a impressão que estão emaranhadas por nós. A imagem 3 é a representação gravada em estela gotlandesa de uma valquíria segurando um corno de hidromel e pode-se perceber de maneira evidente o nó triplo em seus cabelos.

Valkyrie. Runestone from Alskog, Tjangvide, Gotland.


Figura 3: Imagem de valquíria da Era Viking, portando um tradicional nó odínico, Gotland, séculos VIII-IX. Fonte: Museu Histórico de Estocolmo. Figura 4: Pingente de Valquíria de Funen, Dinamarca, circa 800. Apresenta o mesmo nó que a figura anterior, mas em detalhes tridimensionais. Fonte: Jesch, 2014.

Nesses pingentes (figura 4) ou baixo relevos em pedra que representam as valquírias, essas mulheres aparecem de perfil segurando um corno de bebida e estão algumas vezes em trajes femininos muito comuns em toda a Era Viking:  vestidos com sobrecapa adornados por colares de contas e presos com fivelas de metal que quanto mais coloridos e trabalhados eram tantos as fivelas como os colares demonstravam a maior riqueza e visibilidade social de suas usuárias. Esses pingentes que representam as valquíras as colocam sempre em posição de atendentes, e o que evidencia que essas mulheres podem ser reconhecidas como valquírias é justamente pela presença do nó triplo do alto da cabeça e o corno de hidromel que seguram e o mesmo está pronto para ser entregue aos guerreiros que chegam ao Valhala. Mas também atentamos ao fato de que em pingentes, as emissárias de Odin geralmente portam equipamentos bélicos, como podemos constatar na figura 4, apresentando o mesmo nó capilar da figura 3.
Como essas representações de adornos capilares ainda é um campo pouco explorado tanto por pesquisadores nacionais como por estrangeiros e, portanto a bibliografia é praticamente inexistente, esse campo de estudo está relacionado diretamente ao estudo do corpo e suas representações.   Infelizmente esse tipo de pesquisa ainda consta apenas como curiosidade sobre a vida cotidiana das mulheres nórdicas da Alta Idade Média e muito há a ser estudado, pois essas representações são fundamentais para compreendermos a dinâmica de funcionamento de determinadas grupos sociais e tanto a roupa, como os acessórios, como por exemplo, as tranças e os nós são peças-chave para esse estudo. Há algumas pesquisas disponíveis muito genéricas sobre a história do cabelo seus adereços e, principalmente o seu uso não só como um simples adorno, mas, como um símbolo de poder e de visibilidade social.
Recentes estudos como os da arqueóloga britânica Marianne Moen que escreveu a dissertação “The gendered landscape” onde aborda questões pouco exploradas de gênero levanta muitas hipóteses que devem ser levadas em conta quando estudamos não somente a mulher na Era Viking, mas tudo o que cerca o mundo feminino na época como vestimentas, acessórios, utensílios domésticos e, principalmente um cuidado especial quando são utilizadas fontes literárias para essa análise. A arqueóloga ressalta que a partir do século XIX quando a Era Viking e, consequentemente a construção de um ideal de mulher viking passou a ter uma importância significativa para a composição e consolidação de uma identidade escandinava isso se deu sob a forte influência dos rígidos ideais vitorianos de conhecimento, moral, beleza e, principalmente comportamento. Durante a Era Vitoriana foram feitas muitas descobertas arqueológicas e durante esse processo estabeleceram-se rígidas normas de como deveriam ser apresentadas e representadas principalmente para o grande público que consumia via imprensa as notícias dessas descobertas, os modelos femininos vigentes das sociedades que estavam sendo estudadas a partir dos achados arqueológicos.
Os modelos de beleza vitorianos pregavam o recato: a mulher devia estar presa aos sufocantes espartilhos e, mesmo sem habilidade praticar cotidianamente o que, no mundo contemporâneo as mulheres fazem por prazer: thing lacing que é a habilidade de trançar com certa rapidez as fitas que prendem o espartilho e, claro manter presa e de preferência com muito recato com tranças, fitas e alfinetes a vasta cabeleira que podia ser mostrada apenas para o esposo na meia luz dos aposentos.
Esses modelos estéticos femininos que como já foi dito anteriormente ganhou força principalmente a Escola Pré-Rafaelita é praticamente o modelo vigente até hoje: no imaginário, a mulher viking sempre é representada com os longos cabelos presos com espessas tranças. Não há como pensarmos nelas sem os seus longos cabelos. A arte nas suas mais variadas formas já impregnou o nosso imaginário com esse modelo, mas um “corpo do pântano”, o “corpo de Elling” achado recentemente na Dinamarca, apresentou conservado o corpo e principalmente o cabelo de uma mulher, possivelmente pertencente a aristocracia, que apresenta um penteado com nós e tranças muito elaborado o que reforça a hipótese de que mais do que simples adorno natural os cabelos serviam para serem trabalhados e assim demonstrarem a visibilidade das mulheres na sociedade nórdica. As tranças do corpo feminino de Elling são importantes para compreendermos como esses penteados foram importantes não  só  para a  demonstração  de poder   dessas mulheres uma vez que seus


Elling Woman


Reconstruction of Elling Woman's hairstyle and cloak
Figura 4: Cabeça da Mulher de Elling. Fonte: http://www.tollundman.dk/ellingkvinden.asp. Acesso em 27/02/2013 às 10:00. Figura 5: reconstituição contemporânea das tranças da Mulher de Elling. Fonte: http://www.tollundman.dk/ellingkvinden.asp. Acesso em 27/02/2013 às 10:01.
           
cabelos eram trançados por outras mulheres, provavelmente suas servas ou até escravas e que cabelos muito elaborados com variados tipos de tranças e nós eram um privilégio das mulheres da aristocracia.
            Bem como as mulheres mesopotâmicas, egípcias, gregas, romanas e até mesmo as vitorianas, somente as mais abastadas podiam contar com servas para pentearem e, por assim dizer “esculpirem” seus cabelos de forma muito elaborada que além de realçarem a sua beleza eram um demonstrativo da sua alta posição. Pensando nas mulheres escandinavas que viviam em grandes propriedades que abrigavam um número considerável de trabalhadores aos seus serviços e onde ela detinha um poder que não pode ser visto como limitado à esfera privada, pois elas possuíam o controle das chaves não só da casa mas das despensas que durante os invernos rigorosos abasteciam as mesas de todos, portanto cabelos femininos artisticamente trançados eram uma grande demonstração de poder e de prestígio dentro da comunidade.
            O estudo dos adornos capilares femininos na Era Viking ainda está dando os seus primeiros passos, portanto é necessário muito mais estudos e uma pesquisa multidisciplinar onde a Arqueologia, a Literatura, a ourivesaria, e a iconografia estudadas em conjunto possam fornecer os dados necessários para investigarmos em profundidade e com muito mais rigor e propriedade o muito que os nós, as tramas e as tranças têm a nos dizer. É necessário pesquisas mais profundas, pois há pesquisadores interessados e mais ainda, há um grande numero de jovens estudantes que sentem-se motivados para estudar esse tipo de comportamento cotidiano, porém é necessário quem não se trave o conhecimento e que as práticas corriqueiras do cotidiano sejam vistas como fundamentais para o estudo assim como os documentos escritos.
  
Referências:

DAVIDSON, Hilda Ellis.  Myths and symbols in pagan Europe: early Scandinavian and celtic religions. Syracuse: Syracuse University Press, 1988.
JOCHENS, Jenny. Women in Old Norse Society. London: Cornell University Press, 1998.
ROUCHE, Michel. Do Império Romano ao Ano Mil. In: ARIÈS, Philippe e DUBY, Georges. História da Vida Privada. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 441.

FONTE: http://neve2012.blogspot.com.br/

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Tragédia e comédia [por Joseph Campbell]




"Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua  maneira." Com essas fatídicas palavras, o conde Liev Tolstói iniciou o romance do desmembramento espiritual de sua moderna heroína, Ana Karênina. Nas sete décadas que se passaram desde que essa esposa, mãe e mulher cegamente apaixonada se atirou, em sua desgraça, sob as rodas de um trem — terminando assim, com um gesto que simbolizava o que já havia acontecido ao seu espírito, sua tragédia de desorientação —, um tumultuoso e interminável ditirambo de romances, reportagens e gritos não registrados de angústia vem sendo construído em louvor ao touro-demônio do labirinto: o aspecto irascível, destruidor e enlouquecedor do mesmo deus que, quando benigno, constitui o princípio vivíficador do mundo. O romance moderno, tal como a tragédia grega, celebra o mistério do desmembramento, que se configura como vida no tempo. O final feliz é desprezado, com justa razão, como uma falsa representação; pois o mundo — tal como o conhecemos e o temos encarado — produz apenas um final: morte, desintegração, desmembramento e crucifixão do nosso coração com a passagem das formas que amamos. 

"A piedade é o sentimento que toma conta da mente na presença de tudo o que é grave e constante nos sofrimentos humanos e que a une ao sofredor humano. O terror é o sentimento que toma conta da mente na presença de tudo o que é grave e constante nos sofrimentos humanos e que a une à causa secreta." [1] Como afirmou Gilbert Murray em seu prefácio à tradução da Poética de Aristóteles, feita por Ingram Bywater [2], a katharsis trágica (isto é, a "purificação" ou "purgação" das emoções do espectador da tragédia através da experiência de piedade e terror) corresponde a uma katharsis ritual anterior ("uma purificação da comunidade das contaminações e venenos do ano anterior, do velho contágio do pecado e da morte"), que era a função do festival e da representação de mistérios do touro-deus desmembrado, Dioniso. A mente meditativa está unida, na representação de mistérios, não com o corpo cuja morte é apresentada, mas com o princípio de vida contínua que por algum tempo o habitou e que, durante esse tempo, foi a realidade revestida na aparência (a um só tempo, sofredor e causa secreta), o substrato em que o nosso eu se dissolve quando a "tragédia que desfigura a face do homem" [3] despedaça, esmaga e dissolve nossa capa mortal. 

"Aparecei, aparecei, qualquer que seja vossa forma ou nome, Ó Touro da Montanha, Serpente das Cem Cabeças, Leão da Chama Abrasadora! Ó Deus, Fera, Mistério, Vinde!" [4]

Essa morte à lógica e aos compromissos emocionais do fugaz momento em que estamos no mundo do espaço e do tempo, esse reconhecimento e essa mudança da nossa ênfase para a vida universal que palpita e celebra sua vitória no próprio beijo da nossa aniquilação, esse amor fati ("amor ao destino"), que é inevitavelmente a morte, constitui a experiência da arte trágica; aí reside o prazer que ela traz, seu êxtase redentor: "Meu tempo passou, o servo, eu Iniciado de Júpiter Ideu; Onde os Zagreus da meia-noite erram, eu erro; Eu suportei seu grito tempestuoso; Frequentei seus festins rubros e sangrentos; Segurei a chama da montanha da Grande Mãe; Eu sou Liberto e chamado por nome Um Baco dos Poderosos Sacerdotes" [5]

A literatura moderna se dedica, em larga medida, à observação corajosa e atenta das imagens enjoativamente fragmentadas que abundam diante de nós, ao nosso redor e em nosso interior. Onde o impulso natural de queixa contra o holocausto foi suprimido — de vociferar culpas ou de anunciar panacéias —, a magnitude de uma arte trágica mais potente (para nós) que a grega encontra sua realização: a realista, íntima e variadamente interessante tragédia da democracia, em que o deus é visto crucificado nas catástrofes, não apenas das grandes casas, mas de toda casa comum, de toda face lacerada e flagelada. E não há ilusão a respeito do céu, da futura felicidade e da compensação capaz de aliviar o amargo poder supremo, mas apenas a mais negra escuridão, o vazio da não realização, para receber e devorar as vidas que foram atiradas fora do útero somente para fracassarem. 

Comparadas a isso, nossas pequeninas histórias de realização se afiguram dignas de pena. Conhecemos bem demais o amargor do fracasso, da perda, da desilusão e da não-realização irônica que corre até mesmo nas veias daqueles que o mundo inveja! Daí por que não estamos dispostos a atribuir à comédia o alto posto da tragédia. A comédia como sátira é aceitável. Como brincadeira, é um agradável paraíso de fuga. Mas o conto de fadas do "e foram felizes para sempre" não pode ser levado a sério; ele pertence à Terra do Nunca da infância, que se encontra protegida das realidades que se tornarão terrivelmente conhecidas dentro em pouco. Da mesma forma, o mito da eternidade celeste pertence aos velhos, que deixaram a vida para trás e cujo coração deve ser preparado para a última passagem da jornada que leva à noite. O sóbrio e moderno julgamento ocidental tem como base uma total falta de compreensão das realidades descritas no conto de fadas, no mito e nas divinas comédias de redenção. Essas formas, no mundo antigo, eram consideradas de natureza mais elevada que a tragédia, manifestações de uma verdade mais profunda, de percepção mais difícil, de estrutura mais sólida e de revelação mais completa. 

O final feliz do conto de fadas, do mito e da divina comédia do espírito deve ser lido, não como uma contradição, mas como transcendência da tragédia universal do homem. O mundo objetivo permanece o que era; mas, graças a uma mudança de ênfase que se processa no interior do sujeito, é encarado como se tivesse sofrido uma transformação. Onde antes lutavam a vida e a morte, agora se manifesta o ser duradouro — tão indiferente aos acasos do tempo como a água fervente num pote o é para com o destino de uma bolha, ou como o cosmos com relação ao aparecimento e desaparecimento de uma galáxia. A tragédia é a destruição das formas e do nosso apego às formas; a comédia, a alegria inexaurível, selvagem e descuidada, da vida invencível. Em conseqüência, tragédia e comédia são termos de um único tema e de uma única experiência mitológicos, que as incluem e que são por elas limitados: a queda e a ascensão (kathodos e anodos), que juntas constituem a totalidade da revelação que é a vida, e que o indivíduo deve conhecer e amar se deseja ser purgado (katharsis = purgatório) do contágio do pecado (desobediência à vontade divina) e da morte (identificação com a forma mortal).

"Tudo está em mudança; nada morre. O espírito vagueia, ora está aqui, ora ali, e ocupa o recipiente que lhe agradar. . . Pois o que existiu já não é, e o que não existiu começou a ser; e assim todo ciclo de movimento se reinicia." [6] "Apenas os corpos, em que habita o eterno, imperecível, incompreensível Eu, perecem." [7]

É próprio da mitologia, assim como do conto de fadas, revelar os perigos e técnicas específicos do sombrio caminho interior que leva da tragédia à comédia. Por conseguinte, os incidentes são fantásticos e "irreais": representam triunfos de natureza psicológica e não de natureza física. Mesmo quando a lenda se refere a uma personagem histórica real, as realidades da vitória são representadas, não em figurações da vida real, mas em figurações oníricas. Pois a questão não está no fato de tal e tal coisa ter sido realizada na terra. A questão é que, antes de ela poder ser feita na terra, uma outra coisa, mais importante e essencial, teve de passar pelo labirinto que todos conhecemos e visitar nossos sonhos. Por vezes, a passagem do herói mitológico pode ser por cima da terra; fundamentalmente, é uma passagem para dentro — para as camadas profundas em que são superadas obscuras resistências e onde forças esquecidas, há muito perdidas, são revitalizadas, a fim de que se tornem disponíveis para a tarefa de transfiguração do mundo. Cumprida essa etapa, a vida já não sofre sem esperança sob o peso das terríveis mutilações do desastre absoluto, esmagada pelo tempo, terrível ao longo do espaço; mas, com o seu horror ainda visível e seus gritos aflitos ainda tumultuados, ela se torna penetrada por um amor que a tudo abarca e a tudo sustem e por um conhecimento do seu próprio poder não conquistado. Uma parcela do lume que arde invisivelmente nos abismos de sua materialidade normalmente opaca irrompe, com um distúrbio crescente. Assim, as horrorosas mutilações são vistas, tão-somente, como sombras de uma eternidade imanente e imperecível; o tempo se rende à glória, e o mundo canta com o prodigioso e angelical — mas talvez, no final das contas, monótono — canto da sereia das esferas. Tal como as famílias felizes, os mitos e os mundos redimidos se parecem entre si. 


1. James Joyce, A portrait of the artist as a young man, The Modem Library, Random House, Inc., p. 239. 
2. Aristóteles, Arte poética, tradução de Ingram Bywater, com prefácio de Gilbert Murray, Oxford University Press, 1920, pp. 14-16. 
3. Robinson Jeffers, Roan Stallion, Nova York, Horace Liveright, 1925, p. 20. 
4. Eurípides, Bacchae, 1017 (tradução de Gilbert Murray). 
5, Eurípides, The Cretans, frag. 475, apud Porfírio, De abstinentia, IV, 19, tradução de Gilbert Murray. Veja-se a discussão desses versos feita por Jane Harrison em Prolegomena to a study of Greek reli-glon, 3ª edição, Cambridge University Press, 1922, pp. 478-500. 
6, Ovídio, Metamorfoses, XV, 165-167; 184-185 (tradução de Frank Justus Miller), Loeb Classical Library. 
7. Bhagavad-gita, 2:18 (tradução de Swami Nikhilananda) Nova York, 1944. 
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domingo, 23 de março de 2014

“Brother’s Grimm homeland”: belas e fantasmagóricas fotografias que nos levam aos contos, e que deles surgiram.




Série de fotografias inspiradas em contos maravilhosos, principalmente os que ficaram populares pelas coletas dos Irmãos Grimm.  A série chamada Brothers Grimm Homeland mais parece ser um conjunto imagens de cenários fílmicos. O fotógrafo alemão Kilian Schoenberger é também geógrafo, amante de áreas rurais e espaços onde quem dita as regras é a floresta. 



- "Enquanto os outros estão fazendo ioga, eu subo montanhas na escuridão da noite. Mergulho em meu próprio mundo tranquilo passo a passo. O ritmo estóico da caminhada através da escuridão, a iminente suavemente madrugada e, finalmente, o momento gratificante quando eu chego ao meu local final". diz o fotógrafo.

E então surgem os registos fotográficos.


Os contos de fadas dos irmãos Grimm ilustrados nas fotografias fantasmagóricas de Killian Shoenberger 01

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Os contos de fadas dos irmãos Grimm ilustrados nas fotografias fantasmagóricas de Killian Shoenberger 02
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Os contos de fadas dos irmãos Grimm ilustrados nas fotografias fantasmagóricas de Killian Shoenberger 03
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Os contos de fadas dos irmãos Grimm ilustrados nas fotografias fantasmagóricas de Killian Shoenberger 04
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Os contos de fadas dos irmãos Grimm ilustrados nas fotografias fantasmagóricas de Killian Shoenberger 05
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Os contos de fadas dos irmãos Grimm ilustrados nas fotografias fantasmagóricas de Killian Shoenberger 06


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Os contos de fadas dos irmãos Grimm ilustrados nas fotografias fantasmagóricas de Killian Shoenberger 07
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Os contos de fadas dos irmãos Grimm ilustrados nas fotografias fantasmagóricas de Killian Shoenberger 08
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Os contos de fadas dos irmãos Grimm ilustrados nas fotografias fantasmagóricas de Killian Shoenberger 09
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Os contos de fadas dos irmãos Grimm ilustrados nas fotografias fantasmagóricas de Killian Shoenberger 10
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Os contos de fadas dos irmãos Grimm ilustrados nas fotografias fantasmagóricas de Killian Shoenberger 11


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Os contos de fadas dos irmãos Grimm ilustrados nas fotografias fantasmagóricas de Killian Shoenberger 12
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Os contos de fadas dos irmãos Grimm ilustrados nas fotografias fantasmagóricas de Killian Shoenberger 13
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Os contos de fadas dos irmãos Grimm ilustrados nas fotografias fantasmagóricas de Killian Shoenberger 14
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Os contos de fadas dos irmãos Grimm ilustrados nas fotografias fantasmagóricas de Killian Shoenberger 15
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Os contos de fadas dos irmãos Grimm ilustrados nas fotografias fantasmagóricas de Killian Shoenberger 16
Fonte: My Modern Met.

terça-feira, 18 de março de 2014

Humanidade [por Georg Trakl]




Humanidade posta ante abismos de chama,
Um rufo de tambores, frontes de guerreiros tenebrosos,
Passos pela névoa de sangue; negro ferro exclama;
Desespero, noite em cérebros pesarosos;
Aqui a sombra de Eva, caça e rubra dinheirama;
Nuvens que a luz atravessa, vespertina refeição.
Em pão e vinho deve um doce silêncio residir.
E aqueles lá reunidos, doze são.
À noite sob ramos de oliveira gritam ao dormir;
São Tomé mergulha na ferida a mão.


IN: De profundis e outros poemas.
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1914. Após a batalha de Grodek, na Galícia, 90 feridos graves do exército austríaco são entregues, num celeiro, aos cuidados de um tenente. Mero farmacêutico, quase sem remédios, ele pouco pode fazer. Do lado de fora, desertores são enforcados. Um dos feridos se mata, com um disparo, em sua presença. Ele também tenta o suicídio. Mas só obtém sucesso posteriormente, na segunda tentativa. Idade: 27 anos. Nome: George Trakl.

A era do homem mimado

Por Ortega Y Gasset


      O homem vulgar resolveu governar o mundo. Esta resolução de avançar para o primeiro plano social produziu-se nele, automaticamente, mal chegou a amadurecer o novo tipo de homem que ele representa. Se atendendo aos defeitos da vida pública, estuda-se a estrutura psicológica deste novo tipo de homem-massa, encontra-se o seguinte: 
1º uma impressão nativa e radical de que a vida é fácil, abastada, sem limitações trágicas; portanto, cada indivíduo médio encontra em si uma sensação de domínio e triunfo que, 2º o convida a afirmar-se a si mesmo tal qual é, a considerar bom e completo seu haver moral e intelectual. Este contentamento consigo o leva a fechar-se em si mesmo para toda instância exterior, a não ouvir, a não pôr em tela de juízo suas opiniões e a não contar com os demais. Sua sensação íntima de domínio o incita constantemente a exercer predomínio. Atuará, pois, como se somente ele e seus congêneres existissem no mundo, portanto 3º intervirá em tudo impondo sua vulgar opinião.

Este repertório de feições fez com que pensássemos em certos modos deficientes de ser homem, como o "menino mimado" e o primitivo rebelde; quer dizer, o bárbaro. (o primitivo normal, pelo contrário, é o homem mais dócil a instâncias superiores que jamais existiu - religião, tabus, tradição, costumes - ) [...] 

Este personagem, que agora anda por toda a parte e onde quer impor sua barbárie íntima, é, com efeito, o garoto mimado da história humana. O garoto mimado é o herdeiro que se comporta exclusivamente como herdeiro. Agora a herança é a civilização -as comodidades, a segurança; em suma, as vantagens da civilização. Insisto com leal desgosto em fazer ver que este homem cheio de tendências incivis, que este novíssimo bárbaro é um produto automático da civilização moderna.



Capítulo XI - A época do mocinho satisfeito. IN: A Rebelião das massas.